Aos que ficam quando chove

As pessoas evaporam-se. Como num arraial, quando começa a chover, é vê-las como formiguinhas a regressar às suas casas e carros.

Quase ninguém fica quando começa a chover, aprendemos isso. A malta gosta de sol e galhofa e os tropeços dos outros não lhes ficam bem.

A vida vai-se encarregando de encurtar o círculo cada vez que chove na festa, e habituamo-nos a ver pessoas que julgávamos próximas a esvaírem-se pelas dificuldades que atravessamos.

Faz parte. E é sempre um pouco estranho assistir a essas saídas atabalhoadas, mas deixam realmente de ser um motivo de tristeza. Apenas uma constatação de que aqueles convidados estavam a mais.

E a festa continua, sempre, com os verdadeiramente necessários: os que ficam independentemente das condições meteorológicas.

PA.

Conselho de Segunda

“Digo-vos: praticai o bem.

Porquê? O que ganhais com isso?

Nada, não ganhais nada. Nem dinheiro, nem amor, nem respeito, nem talvez paz de espírito. Talvez não ganheis nada disso.

Então por que vos digo: Praticai o bem?

Porque não ganhais nada com isso. Vale a pena praticá-lo por isso mesmo.

Fernando Pessoa, in Aforismos e afins

PA

Da gestão da Raiva

No livro Pequeno Curso de Magia Quotidiana  (ainda sem versão portuguesa), a filósofa Anna Sólyom conta um ritual utilizado pelos esquimós, para lidar com a raiva:

“Um costume dos esquimós para acalmar alguém que está enraivecido consiste em fazer essa pessoa andar no meio do campo, seguindo uma linha recta. O ponto em que a pessoa fica aborrecida é marcado com uma estaca, como testemunho da força e da duração da raiva.”

Simples, não é? Vou passar a aplicar esta tecnica, até porque me parece qye só tem vantagens.

Em primeiro lugar, é sempre bom fazer exercício, em segundo o simples facto de sairmos da nossa bolha de raiva e mexermo-nos vai-nos obrigar a focarmos a nossa atenção em outras coisas, como mantermo-nos na linha recta e, por fim, ao entrarmos em movimento e distribuirmos a nossa atenção a raiva vai começar a perder força até que ficaremos aborrecidos por esses sentimentos negativos e nefastos.

Nada como experimentar, certo?

Art. Bryan Alexander/Arcticphoto

PA

O tempo nem sempre cura tudo

“O tempo nem sempre cura tudo. Tenho feridas que já cicatrizaram, mas que insistem em latejar quando o dia está nublado. Tenho mágoas que já foram superadas, mas se lembro bem, se lembro forte, se penso nelas eu choro. E o choro dói, dói, dói como se fosse ontem. Tenho vontades que nunca passam. Tenho uma tara por chocolate e queijo que nunca saiu de viagem. Tenho mania de escrever em blocos e ter pelo menos dois deles sempre dentro da bolsa. Tenho sentimento de posse, tenho ciúme, tenho medo de perder quem é essencial na minha vida. Tenho medo de me perder, por isso acendo todas as luzes.

A vida me ensinou a perdoar os outros. Mas fez questão de me mostrar que a gente pode perdoar sem esquecer. Minha memória é boa, sei quem pisou na bola. Aceito que as pessoas errem uma ou dez vezes, desde que se arrependam com o coração. Arrependimentos da boca para fora nunca me convenceram, apesar de eu já ter caído em ladainhas toscas sem fim. A vida ainda não me ensinou a me perdoar. Me condeno, me mando para a cadeia, para a solitária, como pão e água. Cumpro minha pena e nem assim descanso. E eu não sei pedir. Meu Deus, eu não sei pedir ajuda. Nunca gostei de depender dos outros. E tem mais: não consigo dizer eu-preciso-de-você-agora. Sei que é simples, mas não sai. Algo me trava, a voz não sai.”

de Clarissa Corrêa 

PA.

Em caso de dor

Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério, deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre.


poema de Alice Ruiz 

PA

Do caminho para Mordor

SAM: Está tudo errado! Nós nem deveríamos estar aqui…
Mas estamos! É como nas grandes histórias, Sr. Frodo: as realmente importantes, que eram cheias de perigos e de escuridão…
Daquelas que, às vezes, nem sequer queremos saber o final, porque, é pouco provável que o final seja feliz.
Como o mundo poderá voltar a ser o que sempre foi, quando tantas coisas más aconteceram?
Mas, no final, a sombra, será apenas passageira e até a escuridão tem de passar!
(…)
Essas são as histórias que ficam na nossa memória, que significam alguma coisa… Mesmo quando somos crianças e não percebemos bem todos os pormenores ou razões.
Mas eu acho, Sr. Frodo, que já sei, agora eu percebo: as pessoas daquelas histórias, tiveram muitas possibilidades de desistir, mas não o fizeram!
Elas continuaram , porque se agarraram a alguma coisa…

FRODO: A que nos vamos agarrar nós , Sam?
SAM: Que há algo bom neste mundo, Sr. Frodo! E que vale a pena lutar por isso!

SAM: Será que, um dia, também vão fazer contos ou canções sobre nós?
FRODO: Quê?
SAM: Será que um dia vão dizer: “Conta a história do Frodo e do anel…”? E depois começam ” Frodo foi muito corajoso, o mais famoso dos hobbits!”
FRODO: E o Sam? Não se pode deixar de fora um dos personagens principais… “Samwise, o corajoso!” É preciso contar que ” Frodo não teria chegado tão longe sem o Sam! “

tradução adaptada por mim de passagem do filme “O Senhor dos Anéis – As duas torres” (2002)

Imagem daqui

PA

Da influência do tempo

O dia acordou farrusco. Chove e está frio.

As árvores dançam ao compasso do vento, lembrando que há coisas bonitas mesmo nos dias feios.

Cheira a terra molhada e há uma certa nostalgia no ar.

Os casacos e as botas saíram dos armários para ajudar a enfrentar a intempérie deste dia de Inverno, em pleno Outono.

As pessoas ficam pensativas e diz-se que é Outono, tempo de recolhimento e introspecção.

Sempre achei incrível a influência do tempo no nosso humor, como uma relação perfeita de causa e consequência. Quase uma verdade universal.

Mas que culpa pode ter a chuva dos nossos sorrisos amarelos? Ou qual a intervenção do frio nas nossas angústias? Taparão as nuvens dos dias cinzentos as nossas melhores perspectivas? Ou é o frio que nos arrefece o coração?

PA

Frustração de expectativas

– Sim, tenho muita pena – respondeu-me ela.

Senti a desilusão na voz dela. Conhecia bem aquele “tenho muita pena”, que só se ouve de quem já conhece bem a diferença entre as coisas que importam realmente e as que merdices que a vida nos tenta impingir.

Fiquei triste. Sei, por experiência própria, que quando partilhamos essa pena que temos, está a doer alguma coisa lá dentro, num cantinho bem escondido dentro de nós onde guardamos os desencantos da vida e os projectos aos quais demos tudo e não foi suficiente.

Perderam-se, no caminho, as expectativas que tínhamos e deram lugar, no final, a um espaço vazio que é preciso preencher de alguma maneira, antes que o vácuo se instale.

É preciso dar tempo, restaurar a esperança e aprender a criar novas expectativas, mesmo que tenhamos medo da desilusão, não podemos deixar-nos vencer por ela.

Art. Banksi

PA

Resistência

Eu gosto do verbo “resistir”.

Resistir ao que nos prende,

Aos preconceitos,

Aos julgamentos apressados,

À vontade de julgar,

A tudo o que está errado em nós

E só quer expressar-se,

À vontade de desistir,

À necessidade de reclamar,

À necessidade de falar de si mesmo

Em detrimento do outro,

Às maneiras,

Às ambições insaudáveis,

à perda ambiental.

Resistir… e sorrir.”

de Emma Dancourt, tradução minha.

Imagem daqui

PA

Dos avós

“(…) Assim, quando o último avô te deixa,

Significa que já és grande.

És tão grande não já não existe nenhum daqueles antigos “guardas”

Que te davam doces às escondidas e te levavam para o jardim de infância.

Não sobrou mais nenhum,

Deles que eram de mundos sobreviventes às bombas.

E à fome, com bicicletas brancas e pão no papel,

Mundos diferentes, sem telemóveis, com famílias numerosas,

Casas com chão de manchas castanhas

E sopas, cassetes, camisolas com cheiro a naftalina.(…)

No entanto, mantens, dos teus avós, uma obstinação fofa, revolucionária:

A de querer deixar marca,

Mesmo quando és como o vento. Só de passagem.”

in As coisas para salvar, de Ilaria Rossetti

PA.