Fábula para Segunda-feira

A serpente e o pirilampo

"Conta-se que uma serpente começou a perseguir um pirilampo. Fugiu um dia e ela não desistiu; dois dias e nada. No terceiro dia, já sem forças, o pirilampo parou e disse à cobra:

– Posso fazer-te três perguntas?
– Podes, mas só três.
– Pertenço à tua cadeia alimentar?
– Não.
– Fiz-te algum mal?
– Não.
– Então, por que queres acabar comigo?
E a serpente responde:
– Porque não suporto ver-te brilhar.

Infelizmente, a qualquer momento, uma cobra pode cruzar nosso caminho. Esteja sempre alerta, pois o que não faltam são serpentes querendo atrapalhar-nos. Mas, não tenha medo! Não fuja! Brilhe sempre, com muita intensidade!"

Imagem daqui

É …a vida é boa!

"(…) Diariamente eu chego a simples conclusão de que a vida é tão maravilhosa porque também é feita de colos, de feridas que cicatrizam, de amigos que celebram ou choram junto, de café coado com coador de pano, de gente que pega ônibus ou faz caminhada pela manhã, de quem planta o que se pode comer, de vizinhos que alimentam seus gatos com comida de gente. Que a vida é feita de algumas pessoas que direcionam todo o seu potencial criativo para melhorar a qualidade de vida de gente que eles nem conhecem. Que é feita de e-mails que chegam recheados de saudade e de cartas extraviadas solitárias numa gaveta de um correio qualquer. De muros e pontes e cais. De aviões que suprimem distâncias e de barcos que chegam. De bicicletas que atravessam cidades. De redes que balançam gente. De rostos que recebem beijos. De bocas que beijam. De mãos que se dão. Que existem pessoas altamente gostáveis, altamente rabugentas, altamente generosas, pessoas distraídas que perdem as coisas, mal-educadas que buzinam sem necessidade, pessoas conectadas que se preocupam com o lixo, pessoas sedutoras e seduzíveis, possíveis e impossíveis, pessoas que se entregam, pessoas que se privam, pessoas que machucam, pessoas que chegam pra curar desencadeadores de poemas, de sorrisos, de lições de vida que ficarão guardadas para sempre … A vida é tão maravilhosa porque ela nos compensa com ela mesma."

Marla de Queiroz

É preciso deixar ir…

Disse-me que, agora, à volta dela só mantém o que é verdadeiro. Só o que vale a pena. Só o que não tira a paz.
Tinha a sensação de não conseguir seguir em frente por ter demasiado peso nos ombros. Como um balão de ar quente que não sobe porque está cheio e é preciso ir deitando fora os sacos para que possa voar.
Disse-me que sentiu isso, que teve de decidir deixar para trás tudo o que não lhe fazia bem, o que diminuía a sua alegria e tranquilidade.
Olhou para mim, com algum pesar, percebi isso e acrescentou:"como as pessoas sabes, há pessoas que só nos puxam para baixo, têm sempre algo negativo a dizer, alguma crítica destrutiva a fazer. Há pessoas que percebes que só querem saber da tua vida para contar, para comentar, para analisar, como se vivêssemos num big brother gigante. Também tive de deixar algumas pessoas, tenho pena, foi difícil, mas tive que pensar em mim, percebes? "
Eu percebo. Precisamos de largar o que nos prende se queremos voar…

O fim do medo de Domingo e outras coisas

Finalmente conseguimos encontrarmo-nos, depois das muitas combinações descombinadas.
Disse-me que o tempo, desde que o ano começou, tem fugido debaixo dos pés, no bom sentido.
Que as mudanças são assim mesmo, imprevisíveis. E as dela têm sido incrivelmente compensadoras.
Um dia disse-me que queria ter uma vida em que precisasse de férias para descansar, não para fugir ou poder ser ela própria por uns míseros dias…
Hoje confessou-me que é uma pessoa grata, enquanto dá um passeio na praia ao final da tarde, porque tem essa vida, de que não precisa de fugir.
Não precisa dos fins de semana para se sentir viva, nem dos feriados para ser ela, nem das férias para estar em paz.
Também já não tem medo dos Domingos e as Segundas-feiras já não a deprimem.
Já não sente uma faca constantemente apontada às costas e nem um nó na garganta com o amontoado de tudo o que não dizia.
Isso percebe-se, na cara dela, na postura, nas gargalhadas desprendidas e genuínas, iguais às que dava quando a conheci, há uns 15 anos atrás…
" Mudaste muito" disse-lhe, contente como só ficamos pelos amigos que são família
" Não" respondeu-me " só voltei a ser eu! ".

Boas notícias

Isto é que é tecnologia a melhorar a nossa qualidade de vida:

O “uber das bolas de Berlim” na praia já existe

Pode-se descarregar a app aqui.

J.

Imagem daqui.

A tradição já não é o que era

Nem nas Noivas de Santo António, nem em muitas outras coisas.

E ainda bem. Graças ao Santo António. E a todos os outros santinhos.

Ontem, quando vi isto em directo, fiquei meio horrorizada (com a constatação de que ainda há quem pense assim), meio divertida (com a perspectiva de que, como eu, a maioria das pessoas achasse graça ao ridículo da situação).

Dafuq

Num minuto e meio de reportagem a repórter consegue não só ter um momento menos feliz dizendo que “até há noivas que já são mães” (dramático, coisa que nunca houve noutros tempos, claro), escolher uma ex candidata a noiva de Santo António que não o chegou a ser, porque, vejam bem isto, não podia convidar toda a gente que queria e  culminar ao acertar na melhor espectadora para entrevistar.

Ora vejam:

https://www.rtp.pt/noticias/cultura/estamos-em-direto-dos-casamentos-de-santo-antonio_v1007557

Concordo com a senhora numa coisa. A inspecção médica. Só acho é que quem devia ser sujeito a inspecção médica (e psicológica) são as pessoas que em 2017 ainda pensam assim.

J.

 

A voz da minha consciência

O problema é a vozinha fininha que vem de dentro e que me incomoda até às unhas dos pés.

O problema é a espinha dorsal que me impede de olhar para o lado e assobiar. O problema é a consciência: a minha.

De que vale apregoarmos valores e princípios e depois ficarmos de braços cruzados quando nos atiram um dilema moral para o colo? Quem somos nós quando nos calamos perante uma injustiça? Quem sou eu quando me tento convencer que não tenho de fazer nada?

E sempre aquela frase na minha cabeça ” para que o mal triunfe é preciso que os homens de bem nada façam“.

Uma amiga foi assaltada há uns anos numa das ruas mais movimentadas de Lisboa. Para lhe arrancar a mala, um tipo empurrou-a, ela caiu por uma escada e ali ficou. De todas as pessoas que passaram por ela nenhuma lhe estendeu a mão, nenhuma se importou, todos lhe passaram ao lado. Teve de se levantar sozinha e, mal se podendo mexer, telefonar a pedir ajuda. De toda a experiência, foi isto que lhe foi mais dificil ultrapassar: a falta de humanidade.

E pensar que toda aquela malta que passou por cima dela, naquela tarde, se deitou à noite e adormeceu…

Eu não consigo adormecer sem que antes a minha consciência me diga: ” estás a falhar…e eu sei que tu sabes isso…”.

Hoje no carro levantei pus o volume da música no máximo, para ver se o som abafava a voz miúdinha da minha consciência. Não resultou.

Não consigo deixar de pensar que nos tornamos cúmplices das porcarias com que compactuamos. Seja quando deixamos que uma pessoa pontapeie um cão à nossa frente, quando viramos a cara perante um casal que se agride, quando passamos por cima de alguém que foi assaltado, quando nos calamos e deixamos que humilhem alguém à nossa frente? E o que isso faz de nós? O que isso faz de mim?

Como é que toda a gente dorme?

No fim do dia, a questão é simples: estou a borrifar-me que metam a pata na poça ou na lama, só não me obriguem a sujar-me também.

Sou responsável pelos meus erros, pelas minhas porcarias, pelas minhas decisões, não me arrastem para decisões que não tomei; não posso ser cúmplice de porcarias que não são minhas.  Não consigo. Está na minha natureza.

É que eu não sei como os outros dormem, mas eu não durmo e preciso de dormir!

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P.