Desculpa Darwin.

É sexta-feira e anda tudo a postar mensagens de aleluia, celebração e agradecimento aos céus e deidades. É vê-las a aparecer a partir de quinta-feira à noite acompanhadas de smileys, animais fofos ou paisagens idílicas. Na sua maioria tentam ter piada e são recebidas com fervorosos likes e palavras de exaltação. Respira-se animação e alegria pelo aproximar do fim de semana.

Pois a mim calha-me sempre à sexta-feira o dia de vamos-ocupar-o-miolo-com-merdas-pensamentos profundos.

Dá-me para isto porque chego a sexta-feira cansada e ainda não me consegui habituar. Já ando nisto há uns anos e não se tornou mais fácil. Não, não me habituei à rotina. É o que, todos os dias, me corrói, como um ácido fraco que muito lentamente me dissolve.

Eu até gosto de me levantar cedo, de adormecer dorida depois de um dia cheio, de trabalhar muito concentrada para que fique tudo perfeito, de ter muitas coisas para fazer. Aliás até acho que funciono melhor quando estou atarefada e sinto alguma pressão.

Mas não sei gerir a rotina. Parece-me que para outras pessoas é como uma bênção, as coisas programadas, com horários e sequências bem conhecidas. Ou pelo menos vejo-as acostumadas a isso. Mesmo os que não são propriamente fãs, acabam por habituar-se. Eu acho que nunca vou conseguir, porque não entendo a lógica, não consigo encontrar o sentido.

Trabalhamos para ganhar dinheiro, que gastamos para ir trabalhar.

A rotina é careira. Se me deito tarde porque fiquei a ler, pintar, brincar com o gato, namorar, etc., vou pagá-lo no dia seguinte, vou ter sono todo o dia, dores de cabeça e dificuldade em concentrar-me. Qualquer desvio será cobrado.

A rotina é insensível. Não quer saber se é um dia especial, se a tua mãe faz anos ou se estás só a precisar de dois dedos de conversa com a tua melhor amiga. Não quer saber, aliás, se estás num suposto “dia livre”, como fins-de-semana ou férias. Ela está sempre lá, mesmo que em segundo plano, a avivar-te a memória do que tens/devias fazer. Que devias estar a aproveitar o teu tempo para fazer qualquer coisa útil ou, no cúmulo da sua perversidade, faz-te sentir culpa ou vergonha por te sentires feliz no teu desvio.

E vai-nos cingindo a isto. A andarmos constantemente a correr, em esforço, numa luta inglória para ir trabalhar, para ir para casa, para chegar mais cedo, para aproveitar o fim-de-semana. Vivemos como os hamsterPet Hamster Holding A Blank  Signs nas suas rodinhas. Está tudo bem enquanto rodamos a alta velocidade e não temos tempo ou hipótese de pensar no porquê de o fazermos.

Vamos sendo preparados desde pequenos e a dada altura é normal, é o desejável, é onde a sociedade nos quer. E nós continuamos. Bem adaptados à rodinha, aumentando as probabilidades de sobrevivermos e deixarmos descendência, de forma a garantir a continuação da espécie homo-hamster.

Desculpa discordar, Darwin, mas isto não me parece uma evolução.

J.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s