A idade real.

Um destes dias teve mais um segundo. Para acertar ou compensar qualquer coisa. Li algures a notícia, que não processei bem, e lembro-me de pensar “um segundo ninguém dá por ele, se calhar só os computadores é que podem atrofiar ou assim”. Logo a seguir caí em mim.

Percebi há uns anos que o tempo que um segundo demora é muito relativo e, volta e meia, o cosmos faz questão de mo relembrar. Nas últimas semanas tem sido particularmente zeloso em não mo deixar esquecer.

Quando a C. se levantou da cadeira, foi em direção à porta do gabinete e a fechou, algo mudou no ar. Não disse nada, deixei-me estar sentada na cadeira a olhar pelo canto do olho. Encostou-se a uma das mesas e mapeou as nossas posições na sala. Rodei na cadeira, agarrei uma pasta contra o peito e preparei-me para o impacto. “Tenho uma coisa para vos dizer”. BAM. O meu cérebro não tinha ainda informação nenhuma mas o meu corpo já sabia.

“Na sexta-feira fui a uma consulta.” Continuou a falar mas eu já ouvia como se estivesse dentro de um aquário. “E o que tenho para vos dizer é que tenho cancro da mama”.

Foi um daqueles segundos que durou muito mais. Deu a notícia como faz tudo. Com muita clareza, método e rigor. Ponto por ponto. Enquanto falava eu via, na minha cabeça, as células num Excel a serem preenchidas e antevia o resultado daquele somatório. Merda de fórmula.

Passaram-se duas semanas mas muito devagar. Descobri que duas pessoas que conhecia, ainda que não fossem próximas, tinham morrido depois de lutarem contra cancros. Pessoas jovens, saudáveis. O cosmos a relembrar-me da aleatoriedade das coisas. Obrigada.

Ontem cheguei ao escritório, fui a primeira a chegar, liguei o PC, abri o email e tinha uma mensagem da minha amiga M. “Estás aí? Tenho uma coisa para te dizer”. BAM. Oh não... “Recebi o resultado da biópsia e não podia ser pior, tenho um melanoma”. Foi um segundo.

Tentei escrever, agarrei no telemóvel, escrevi, apaguei, escrevi outra coisa. Revi mentalmente cenas da nossa vida, episódios que vivemos juntas, foram dias, meses, foram anos porra, e parecem tão curtos ao pé deste segundo. Como é possível? Como é possível que um segundo apenas açambarque completamente anos inteiros?!

Deparei-me com a revisão de um texto sobre o cálculo da idade cronológica. Aquela que resulta de subtrair a nossa data de nascimento à data atual. Mas isto são só números.

O que nos faz envelhecer são estes segundos demorados, em que o mundo pára de girar. É nesses segundos, em que alguém parte, em que vemos alguém de quem gostamos sofrer ou recebemos um má notícia que ficamos velhos. A nossa idade real é um saldo, injusto, entre os segundos demorados e os super rápidos, que passam sem darmos por eles mas que queremos tanto (e cada vez mais) que perdurem.

J.

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