Reciclagem emocional

No meu trajecto matinal até à estação dos comboios passo por uma rotunda. É uma rotunda pequena e sem grandes decorações.

Um dia, ao passar por lá, reparei que na rotunda estavam embalagens de iogurte líquido. Umas 50 pelo menos. Estranhei mas não pensei muito no assunto. Talvez tivessem caído de uma carrinha ou camião e as tivessem varrido para a rotunda. Parece uma daquelas obras de arte conceptual.

Algumas semanas depois, voltei a reparar na rotunda. Havia ainda mais embalagens. E estavam todas vazias. Somando uma e outra coisa, concluí que não podiam ter caído de um camião. Aposto que é alguém que todos os dias ali passa de carro, que vem a beber o seu iogurte e chega ali e o manda pela janela fora! Que falta de educação, civismo e respeito.

As embalagens de iogurte continuaram a aparecer. Foi até ao ponto de a rotunda estar totalmente coberta. Como é que ninguém limpa isto?!

Isto ficou-me a fermentar na mioleira. Como é todos os dias alguém manda lixo pela janela do carro? Não vê que está a sujar o sítio por onde passa todos os dias? Manda o lixo pela janela e é como se desaparecesse e não tivesse responsabilidade sobre ele! Longe da vista, longe do coração.

E depois apercebi-me. É exactamente o que fazemos com as emoções más, as memórias duras, as verdades difíceis e os pensamentos dolorosos. Como é que só pensei nisto agora?

Atiramo-los para um canto e vamos deixando que se acumulem. Convencemo-nos que não nos estorvam, que não nos afectam, que estão só ali, empilhados.

Mas a verdade é passamos por lá todos os dias. E por muito que queiramos negar ou só não ver, eles vão continuar lá. Vão continuar a sujar o nosso caminho, a torná-lo cada vez mais feio e quem sabe um dia, até nos podem impedir de passar.

Podemos não olhar sequer, mas sabemos sempre que estão lá. Podemos esperar que alguém os tire do nosso caminho, mas não é problema de ninguém e, por isso, ninguém o vai fazer.

Por isso, temos de ser nós a fazê-lo. Mesmo que tenhamos de voltar a cada um, à vez, e tentar decidir o melhor a fazer com aquela mágoa antiga ou com aquele pensamento incómodo.

Muitas vezes não há muito que possamos fazer, é verdade, mas mesmo só o arrumá-los numa prateleira (perspectiva), mais ordenados e identificados pode ser o suficiente para que desimpeçam o nosso caminho.

Mas às vezes conseguimos mais.

Uns vamos conseguir deitar fora de vez, porque não servem para nada e percebemos que não vale a pena guardá-los.

A outros, conseguimos descobrir-lhes novos usos e reciclá-los, e não só deixam de ser um obstáculo no nosso caminho como o podem tornar mais bonito e agradável.

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J.

Imagem daqui.

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2 thoughts on “Reciclagem emocional

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