Somebody that I used to know 

Depois dos 30, é algo que te marca, como uma tatuagem.

Ver uma amizade de décadas esfumar-se e reduzir-se ao ponto de, aparentemente, nunca ter existido, mudou-me.
Eu não estava preparada para lidar com uma decepção daquele tamanho, nunca se está, a não ser que sejamos demasiado cínicos, connosco, com os outros e com a própria vida.

Imagina alguém que sempre esteve na tua vida e tira-a, bruscamente, sem que tenha morrido. Agora lida com isso. Lida com a perda, com a decepção, com o abandono e com a descrença. E lida com o facto de nunca conhecermos realmente as pessoas. Mesmo aquelas que estão em todas as nossas fotografias. Mesmo aquelas que admiras e que fazem parte da tua vida desde que te conheces.

Há um eu antes e depois disso.

É uma coisa que nos marca, que nos muda.
Há uma frase que diz que as pessoas morrem quando nos decepcionam, mas levam com elas um pedaço de nós.

É brutal, mas é verdade, eu fiquei sem um pedaço.

Hoje tenho medo da amizade, do mal que nos pode fazer.
Embora lute constantemente contra isso, penso que vou perder todos os meus amigos, um por um, seja daqui a uns meses ou várias décadas, contra um mal entendido ou outra minudeza qualquer. É uma certeza com que lido com tristeza, e não é cinismo, nem proteção, é mais como se eu soubesse alguma coisa que os outros não sabem.

Por isso apresso-me a esclarecer a mínima ponta solta cara a cara, esforço-me por ser quem sempre fui, mas não dou nada por garantido.

Também não estou de pé atrás, não me interpretem mal, se há pessoas que têm sorte nos amigos eu sou uma delas.
Só que eu sei demais, eu vi demais, eu vi uma constante da minha vida transformar-se num estranho, num desconhecido. E isso dói.

E não sobram as boas memórias ou os bons momentos, não sobra nada além das fotografias. 

Nem pode sobrar, é alguém que se foi embora sem dizer porquê, sem deixar saber porquê, sem olhar para trás e pensar, por um momento, no rasto de destruição que deixava.

E isso mudou-me.
Primeiro chocou-me, depois entristeceu-me, por fim, mudou-me.

O choque vai-se com o tempo, e a tristeza passa (afinal, apercebi-me depois, quem nos deixa para trás, não pode deixar saudades).

A mudança que vejo em mim, chegou quando aceitei que não havia mais nada que pudesse fazer, quando percebi que, por mais voltas que eu desse, não havia volta a dar.

E voltaria a fazer tudo, nunca tive medo de pôr o orgulho de lado para salvar coisas maiores, seja uma amizade, paz de espírito ou uma consistência tranquila.

Não sei o que se passou e provavelmente nunca vou saber, mas tentei tudo, conquistei a minha paz e adormeço quando ponho a cabeça na almofada.

Da tal amizade de uma vida? Não sobrou nada, além de umas centenas de fotografias arrumadas em álbuns e num disco rígido.

E um dia quando alguém me perguntar quem é aquela pessoa que aparece tanto nas fotos, vou dizer a verdade: é alguém que eu pensava que conhecia, mas, afinal, não sei quem é, nunca soube…

2015-11-12

P.

Imagem daqui.

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3 thoughts on “Somebody that I used to know 

  1. Miss IT

    Também passei por uma situação semelhante, no meu caso acelerada pela minha mini emigração do Porto para Lisboa. Hoje em dia não tenho medo de amizades, mas sou bem mais cínica, sem dúvida.

    Gostar

  2. Pingback: 17 de Novembro: dia de remover amizades | Os 30 e Eu

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