Portugalidades

Fui nomeada para uma mesa de voto. Mais do que chamamento cívico, a motivação foi ter mais uma estreia no currículo (e 50 euros que me vão dar muito jeito). Como em tudo, se é para me envolver, é para dar o meu melhor e comecei a preparar-me com alguma antecedência.

Eu estudei os manuais de procedimentos, eu li a legislação, eu procurei informação junto de pessoas experientes, eu fiz perguntas, eu tentei lembrar-me dos pormenores de eleições anteriores, eu fui no dia anterior ver o local, eu pus na mala todo o material que pudesse ser necessário, eu até preparei um lanche.

Nada me preparou para isto:

  • Não se vê vivalma na aldeola, é daquelas com duas ruas (a de cima e a de baixo) e uma associação recreativa e cultural;
  • A mesa de voto é NA associação recreativa e cultural;
  • O presidente da mesa é da minha idade. Tem dente sim, dente não;
  • O vice dá os bons dias e diz que trouxe uma coisinha. Uma garrafa de ginja;
  • A vogal adverte que a aletria está no frigorífico;
  • A delegada pede desculpa por não trazer os coscorões, não teve tempo. Trouxe licor de canela e bolinhos;
  • Há mantas para pormos nas pernas, o salão é gelado;
  • A vogal sabe o nome completo de toda a gente. De alguns sabe também o número de eleitor;
  • Um senhor, já velhote, entra a coxear. Foi mordido na perna pelo cão do vizinho. O presidente e o vice são bombeiros. Avaliam o ferimento e aconselham o senhor a ir ao hospital. O senhor prefere votar, deixando um rasto de sangue;
  • TODA a gente cumprimenta TODOS os membros da mesa. Maioritariamente com beijinhos;
  • Depois do almoço aparece um garrafa de sangria;
  • Nos momentos mortos a conversa oscila entre comida e futebol;
  • Vota o senhor Manuel Carlos Lopes Garcia. Umas horas depois entra de novo e dirige-se à mesa. Estou confusa. Dá os documentos ao presidente: Carlos Manuel Lopes Garcia;
  • Entra uma senhora de meia idade para votar. Grita à Maria que fique na rua. A Maria segue-a na mesma. A Maria é uma gata malhada;
  • Chega o presidente da junta, a comitiva e a filha. Depois dos beijinhos, garante à vogal que a ribeira será limpa. Ele próprio trará a moto-serra e tratará disso na próxima semana;
  • Fechada a votação e contagens feitas, abrimos finalmente as garrafas. A vogal obriga-nos a comer a aletria toda;
  • Combina-se que caso haja segunda volta, o marido da delegada fará feijoada para o almoço para todos.

Apesar das muitas calorias gastas a pensar em comida, no que se comeu ou no que se vai comer, as pessoas com que pude partilhar a mesa desempenharam as suas funções de forma absolutamente irrepreensível. E sem perder a simpatia ou a amabilidade.

Adoro estas portugalidades.

J.

Imagem daqui.

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2 thoughts on “Portugalidades

  1. Dina Rodrigues

    Tao engraçado esse modo de eleiçoes 🙂
    Onde vivo, também uma aldeia, não é tao engraçado porque 1º nem dao oportunidade a outras pessoas de estar na mesa, é sempre os mesmos, segundo dizem os que têm “as boas cunhas” e também porque é uma aldeia onde é sorrisos a nossa frente e facada pelas costas 😛

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    1. janos30

      Também havia conversas de escárnio e maldizer claro (entre elas principalmente).
      Ali também têm sido sempre os mesmos e conhecem-se todos, eu é que fui lá parar vinda de fora!
      Às vezes é bom não fazer caso das cunhas, ideias instituídas e etc. E divertirmo-nos com estas pequenas coisas 🙂

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