Perdoar (não) é esquecer

perdoar

Arrepio-me sempre quando atiram aquela frase “perdoar não é esquecer”. Não consigo deixar de pensar que isso não é perdoar, é meio perdão. E meio perdão é uma pedra inteira no sapato.

Aprendi isso. Também eu já disse que perdoar que não é esquecer, mas percebi, com  o tempo e com uma quantas cabeçadas, como isso é uma falsa questão.

Perante uma decepção, das grandes, daquelas que nos partem o coração em mil pedaços e nos fazem pôr tudo em causa, eu aprendi que tenho duas opções. Se quero manter aquela pessoa na minha vida, porque valores mais altos se levantam, tenho de perdoar e esquecer. Não há meio caminho.

Porque se não consigo esquecer, que raio de relação (de amizade, de amor, de confiança) vou conseguir manter? Que raio de perdão é esse? Que bem me fará manter alguém nestes termos na minha vida?  Vou realmente investir numa relação que nunca vai deixar de ser tóxica, que nunca vai deixar de me trazer más recordações, más vibrações?

Agora, claro, posso perdoar sem esquecer, para eu seguir em frente, para me libertar. No fundo, perdoar-me a mim, porque quando nos magoam, há sempre uma parte de nós que sente que tem culpa nisso, afinal somos nós que damos esse poder a alguém: o poder de nos magoar. Mas se não consigo esquecer, não vale a pena insistir, nem enganar-me, tenho de me afastar, não há nada a salvar ali, não vai sobrar nada dali, nada de bom, pelo menos (excepto as memórias, talvez…).

Por isso, desconfio sempre que me vêm com essa história do “eu perdoei, mas não esqueci…”, penso sempre que alguém se está a enganar ali ( ou quem perdoou ou quem foi perdoado) e invariavelmente esse engano, mais cedo ou mais tarde, vai-se tornar um elefante demasiado grande no meio da sala, de modo que não sobrará espaço para mais nada, a não ser para a mágoa nunca esquecida.

Perdoar uma desilusão, uma mentira, uma traição e continuar uma amizade, um amor, uma relação qualquer, é difícil e é um processo. Envolve esforço, espera, confiança, tempo e humildade, de todas as partes. Envolve recomeçar, do zero. Não é uma coisa que se possa fazer muitas vezes, nem com muitas pessoas. Afinal, vamos voltar a por no fogo as mãos que já queimámos, as únicas que temos. Por isso, temos que escolher bem as nossas batalhas. Para que valha a pena.

Claro que não há garantias. Mas é para isso que serve o nosso instinto, para nos ajudar a escolher as nossas batalhas. Para nos ajudar a ver mais além do desgosto ou da desilusão, para nos indicar quem devemos perdoar e quem podemos esquecer.

P.

 

 

Imagem daqui

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