Joaninha voa, voa…para Marraquexe

Marraquexe, Marrocos, Março 2016.

Na primeira vez que fui a Marraquexe perguntaram-me porque é que eu lá tinha ido, naquele tom que é como se fosse um”mas o que é que lá há para ver!?”. E eu respondi: há tanto para ver, tanto para ouvir, tanto para cheirar e tanto para viver que tenho de lá voltar. Marraquexe é uma daquelas cidades que não se visita, vive-se.

O nome da cidade (que durante muito tempo foi também nome do país) tem origem em duas palavras berberes (mur e kush), significa “terra de deus” e é interpretado pelos marroquinos como uma terra que é de e para todos. E isso sente-se.

Para mim, Marraquexe é o movimento constante, o contraste entre o laranja da terra árida e o branco da montanha em pano de fundo. E o cheiro da flor de laranjeira.

Podia escrever uma dissertação acerca da cidade mas vou tentar ser sucinta e deixar só algumas sugestões para aproveitar a vida de Marraquexe ao máximo.

Onde ficar: 

Num riad. Os riads são casas (mais ou menos luxuosas) típicas das medinas (ou almedinas). O nome medina designa a parte antiga da cidade, que usualmente é murada.

Do exterior nunca se consegue adivinhar um riad, usualmente apenas têm uma porta para o exterior. Mas não se assustem. Os riads são construídos em torno de um pátio interior o que lhes confere uma luz única e um ambiente acolhedor. É fantástico como dentro de um riad se consegue ter sossego e ouvir os passarinhos, mesmo no meio da cidade. É comum terem terraço de onde se pode ver a cidade e aproveitar o sol.

Existem milhentos em Marraquexe, é só escolher o que melhor nos encher as medidas (e a carteira). Recomendo vivamente ficar dentro da medina mas pessoalmente prefiro ficar longe dos souks e da praça principal.

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Pátio interior do riad

O que visitar: 

Túmulos Saadianos: é um mausoléu coletivo onde estão sepultados cerca de 60 membros da dinastia saadiana, que reinou em Marrocos nos séculos XVI e XVII. O edifício foi construído durante o reinado de Ahmed al-Mansur (1578–1603) mas só foi descoberto em 1917.

Tem três divisões, umas mais decoradas que outras consoante o estatuto das pessoas  sepultadas. Os túmulos das pessoas com estatuto mais elevado são de mármore. Tem também um pequeno cemitério onde estão sepultados soldados e lacaios da família real. Nos pequenos canteiros que compõem o espaço exterior, é frequente haver gatos a aproveitarem o sossego para umas sonecas privilegiadas ao sol.

Entrada: 10 dirham (+/- 1 euro).

 

Palácio da Bahia (http://www.palais-bahia.com/en/): é um palácio construído no final do século XIX em estilo árabe-andaluz ou marroquino e o seu nome significa “brilho”.

No palácio funcionou o harém de Ahmed ben Musa, que tinha 4 esposas e 24…amigas especiais (como se chamam as mulheres dum harém? odaliscas? alguém sabe?). Podemos visitar o riad, a casa onde viviam as esposas, o harém, com o vasto pátio solarengo e ladeado pelos quartos das restantes habitantes e o jardim.

A decoração dos tectos, em madeira de cedro e estuque e os azulejos (zellige) são extraordinários.

Entrada: 10 dirham (+/- 1 euro).

 

Palácio el Badi (http://www.palais-el-badi.com/en/): é um palácio em ruínas. Foi construído pelo sultão saadiano Ahmed al-Mansur pouco depois de ter subido ao trono em 1578, para comemorar a sua vitória na Batalha de Alcácer-Quibir. A construção foi em grande parte financiada pelo avultado resgate pago pelos portugueses depois da batalha.

Apesar de pouco mais restar que o grande pátio, os lagos, o jardim de laranjeiras e algumas ruínas dos edifícios do palácio, é digno de visita pelas suas dimensões e imponência. Do terraço tem-se uma vista panorâmica sobre a cidade.

Tem também um museu onde está exposto um mimbar do século XII que pertence à mesquita Cutubia.

Entrada: 10 dirham (+/- 1 euro) para o palácio e  10 dirham para o mimbar (pode comprar-se em separado).

 

Mesquita e Minarete Cutubia: é a maior mesquita e um dos monumentos mais representativos de Marraquexe. A Cutubia destaca-se pelo seu minarete (torre), e é o edifício mais alto da cidade (caso se percam, procurem a Cutubia e usem-na como ponto de referência). O minarete é também o modelo dos de outras  mesquitas como em Rabat, da torre Hassan e em Sevilha, da torre Giralda.

O nome deriva do árabe al-Koutoubiyyin, que significa bibliotecário, pois a mesquita costumava estar rodeada por vendedores de livros. A torre tem cerca de 70 metros de altura e 13 de largura. O interior é constituído por seis salas, atravessadas por uma rampa que permitia ao almuadem (o encarregado de anunciar em voz alta, do alto dos minaretes, as cinco preces diárias) chegar à varanda da torre.

Como em todas as mesquitas em Marraquexe, não é permitida a entrada a não muçulmanos. A mesquita e o minarete podem ser vistos do exterior e os jardins da Cutubia, a sul, são um espaço aberto ao público.

 

Madraça Ben Youssef (http://www.medersa-ben-youssef.com/en/): é uma antiga escola anexa à Mesquita de Ben Youssef. Foi fundada pelo sultão Abu el Hassan no século XII e quase totalmente reconstruída pelos saadianos. Foram estes que deixaram maior marca na arquitetura e arte.

A madraça está centrada num grande pátio com uma piscina para abluções (ritual de lavagem/purificação obrigatório antes dos momentos de oração). Os edifícios são decorados com madeira de cedro, estuque trabalhado, mármore e azulejos.

Podemos percorrer os espaços interiores visitando os quartos dos estudantes e os pátios.

Entrada: 20 dirham (+/- 2 euros).

 

Jardins Majorelle (http://jardinmajorelle.com/ang/):  é um jardim botânico inspirado nos jardins islâmico. O nome deve-se ao pintor francês Jacques Majorelle, que dedicou cerca de 40 anos da sua vida a criar o jardim. No jardim podemos ver cerca de 3 000 espécies de plantas, cactos e flores que contrastam com o icónico azul Majorelle criado em 1937 pelo pintor.

Foi comprado em 1980 por Yves Saint Laurent e Pierre Bergé que após uma primeira visita em 1966 se apaixonaram pelo jardim e o reabilitaram. O seu seu atelier de pintura foi transformado no que hoje é um museu da cultura berbere.

Entrada: Jardim – 70 dirham (+/- 7 euros) e Museu – 30 dirham (+/- 3 euros).

 

O que fazer durante o dia: 

Souks: os mercados. Literalmente, incontornáveis em Marraquexe porque mesmo sem querer damos por nós dentro de um. De início parece impossível orientarmo-nos lá dentro mas depois vamos percebendo que todos os caminhos vão dar à praça principal e que existem indicações em muitos locais.

Fazer compras aqui é uma experiência por si só. Esqueçam tudo o que acham que sabem sobre compras e regatear preços. Os marroquinos são mestres e fazem questão de o demonstrar. Por isso qualquer compra demora no mínimo 30 minutos e cansa como saltar ao pé coxinho.

Se gostam de algum artigo não tenham medo. Respirem fundo e preparem-se. O vendedor vai querer que entrem na loja (quando derem por vocês já lá estão dentro, e nem se deram conta como), vai-vos dar um preço exorbitante, vai-vos perguntar o preço que querem dar (o primeiro preço vai definir a vossa margem de manobra, digam sempre uma ninharia, do tipo menos de 1/5 do que o vendedor disser) e partir daí é uma prova de resistência. Eles reclamam, gesticulam, escrevem os valores no papel, amarrotam, deitam fora, etc…vocês digam que não têm mais, que vão embora, etc… entrem no jogo e não se deixem amedrontar se o vendedor parecer chateado!

Normalmente o valor justo ronda 1/3 ou 1/4 do valor que eles pedem. Se o vendedor ficar danado da vida e vos pedir o dinheiro, é bom sinal. No entanto, não se iludam, mesmo quando achamos que fizemos um bom negócio…eles saem sempre a ganhar!

Se não pretendem comprar e passar por todo este processo, sugiro que não apontem nem mexam nas coisas e agradeçam, com um sorriso e um merci ou shukran, às ofertas que vos fizerem.

As lojas mais perto da praça estão abertas até mais tarde mas muitas fecham cedo, por volta das 19h, principalmente se estiver muito frio. Ao final da tarde por vezes os vendedores leiloam algumas coisas ou fazem “saldos”.

 

Hammam: depois da estafa das compras não há nada melhor que um hammam. Os hammams são, tradicionalmente, banhos públicos e consistem numa espécie de banho turco seguido de exfoliação. Na maioria há a hipótese de juntar ao banho uma massagem.

Em muitos locais, principalmente nos mais tradicionais, ainda se observa a separação de horários por sexos mas muitos já admitem homens e mulheres no mesmo horário. No mesmo horário não significa em conjunto…nos hammams as meninas vão para um lado e os meninos para o outro.

Basicamente o processo é o seguinte (há variações): depois de nos pormos como viemos ao mundo, uma senhora leva cada cliente para uma sala onde nos molha com água quentinha e esfrega com uma pasta preta (sabão preto, feito de azeitonas). Depois deixa-nos num banho turco durante uns minutos (+/- 15 min). A senhora volta e leva-nos de volta à sala do banho. Deitamo-nos numa espécie de marquesa de pedra e a senhora passa-nos por água novamente e esfrega-nos com uma luva kessa (luva exfoliante). E esfrega, esfrega, esfrega…esfrega TUDO, em TODOS os sentidos e de TODOS os lados. E com força! Acho que fiquei mais branca…se é que é possível.

Voltamos ao banho turco mais uns 15 minutos. Depois, noutra sala, fazem a massagem, com óleos aromáticos. E novamente, massajam TUDO. Desde os dedos dos pés, às orelhas, pálpebras e couro cabeludo. 40 minutos divinais. Já estava a babar-me quando a senhora me volta a levar para a sala do banho e me dá um banho completo de puff e gel de duche muito cheiroso. Até o cabelo me lavou.

Eu juro que nunca estive tão lavada como depois do hammam.

 

O que fazer à noite: 

Praça Jemaa el-Fna ou Djemaa el-Fna: é o coração da cidade e património cultural imaterial da humanidade da UNESCO desde 2008.

Durante o dia percebe-se a sua grande dimensão mas à noite…à noite é mágica. Sugiro que vejam o pôr do sol num dos muitos cafés que rodeiam a praça. Subam aos terraços e escolham uma mesa na primeira fila (a concorrência tende a ser feroz). Peçam um chá e observem a praça a ganhar vida.

Vejam o céu a mudar de cor, a passar do azul forte ao laranja e depois ao azul escuro pontilhado de estrelas. Vejam a lua subir ao lado da cutubia como se estivesse a pousar para a fotografia. Vejam a praça a encher-se com as bancas de comida, bancas de caracóis, de chás, de frutas. De contadores de histórias, de tambores, de encantadores de serpentes, de música e de cheiros. Não há fotografia ou vídeo que consiga reproduzir.

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O que comer/beber:

Chá de hortelã. Feito com molhos de hortelã fresca. É delicioso e bebe-se antes, depois ou durante qualquer refeição.

Nos riads o pequeno almoço costuma ser um misto marroquino-europeu de coisas boas, sumo de laranja, chá de hortelã, pão, queijo etc… Destaco uma espécie de crepe chamado msemmem (ainda que tenha ouvido chamar-lhes outro nome que não apanhei). Servem-no ainda quente e fica delicioso com doce.

Por toda a cidade há bancas de sumo de laranja (4 dirhams, +/-40 cêntimos) e de outros frutos que nos deixam misturar como queremos. Há também frequentemente fruta à venda (morangos, coco, figos de piteira, ananás, bananas etc…).

É fácil de encontrar pastelarias recheadas de bolinhos muito decorados e muito bonitos (influências francesas provavelmente). Os que mais gosto são umas meias luas brancas recheadas de amêndoa e que sabem a flor de laranjeira.

Jantar nas bancas das praças é também uma experiência que não devem deixar escapar. As bancas são regulamentadas pelo estado pelo que oferecem alguma confiança na sua higiene e os preços são tabelados e afixados. Tenho a sensação até que a oferta é idêntica entre elas.

Existem as bancas de tagines, couscous e kebabs, as bancas de peixe frito, as bancas de harira (sopa tradicional marroquina), as bancas de méchoui (borrego assado) e as bancas de sandes de ovo e batata (bastante grandes e bem recheadas). Encontra-se também uma boa variedade de opções vegetarianas e a pastilla (uma espécie de pastel redondo recheado de frango e amêndoa, polvilhado com açúcar em pó e canela).

É possível comer bem e muito barato, por exemplo uma sopa custa entre 3 a 5 dirhams (entre 30 a 50 cêntimos) e uma sandes de ovo no máximo 8 dirhams (+/- 80 cêntimos). Um prato pequeno de tagine ou de couscous custará cerca de 40 dirham (+/- 4 euros).

Não é recomendável beber água da torneira ou consumir gelo nas bebidas e sobretudo não se deve comprar água aos aguadeiros que se encontram pela cidade e que interpelam os turistas. Há água engarrafada à venda por todo o lado e barata, não vale a pena arriscar.

 

O que levar na mala:

Pouca coisa! A tendência é para regressar com muito mais do que o que se levou!

Parece que afinal não consegui evitar a dissertação 🙂 espero que estas informações vos sejam úteis e que visitem Marraquexe brevemente (ouvi dizer que a TAP está com umas promoções)

J.

 

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2 thoughts on “Joaninha voa, voa…para Marraquexe

  1. Elsa Moreira Branco

    Eu adorei Marraquexe….A comida, os cheiros, as pessoas, os souks, os tajines de tudo e mais alguma coisa, o fabuloso chá de menta …tudo, tudo!! Um destino tão próximo e tão exótico!! Amei!!!

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    1. janos30

      Pois é, tão diferente e aqui tão perto, parece impossível!
      As cores, os cheiros e os sons são fantásticos, não dá para descrever devidamente nem por escrito nem por fotografia, só estando lá mesmo.
      Também adoro, e cada vez mais 🙂

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