Mar, deserto e flor de laranjeira

Como é que começa um deserto?

Algures no caminho, foi esta a dúvida que me veio à cabeça. Só consegui relacionar o que senti com uma interrogação parecida que me lembro de ter quando era pequena. É a primeira memória que tenho de um raciocínio.

Lembro-me de estar a pensar em como começava o mar. Eu sabia que já tinha ido à praia e visto o mar mas não me conseguia lembrar de como começava. Lembro-me de o imaginar como uma parede de água azul, mais escura em baixo que em cima, e de lhe imaginar peixes e algas pelo meio.

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Algo deste género mas a surgir na linha de rebentação

Lembro-me de ter de recorrer a toda a minha capacidade de abstracção e de memória para concluir que não, o mar não era assim. Se eu primeiro molhava os pés e depois as pernas, não podia ser uma parede, tinha de ir ficando cada vez a areia mais longe e a água mais funda. E depois desse raciocínio, lá me lembrei de como começava o mar.

Mas ao deserto nunca tinha ido e dei por mim a pensar que de todas as ideias que tinha acerca de um deserto, nenhuma era minha. Eram ideias vindas na televisão e de livros, ouvidas em relatos de quem já lá foi e extrapoladas das dunas da praia que compunham a minha ideia do que é um deserto. E foi aí que o perguntei ao H.:

Como é que começa um deserto? E ele respondeu: De repente.

De repente. Demorei um bom bocado a formar uma imagem mental que me parecesse plausível. Não me sentia assim desde o raciocínio do mar. Passei do perplexo ao entusiasmado quando percebi pelas horas que já devíamos estar quase a chegar.

Colei a bochecha ao vidro e mantive os olhos muito abertos para poder tirar uma fotografia de cabeça do instante em que o deserto começasse. Durante (muitos) quilómetros de estrada só vi terreno árido, parco em cor e em vida. E, de repente, lá estava. Dunas de areia, montes enormes, cor de laranja e perfeitamente desenhados no horizonte.

Sei que saímos da carrinha, montámos nos camelos e entrámos no deserto mas só me lembro de as dunas serem cada vez mais altas e cor de laranja, a sombra do camelo cada vez maior e o sol estar cada vez mais baixo. O laranja da areia e da luz fazia o céu ser muito mais azul e todas as outras cores brilharem. E um silêncio diferente, como se estivéssemos numa sala insonorizada, como se não houvesse eco.

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Fotografia da minha autoria. Todos os direitos reservados.

Num instante caiu a noite e jantámos e sentámo-mos à volta da fogueira a ouvir os tambores e a dançar. Mas eu tinha os sentidos noutro espectáculo. Saí do acampamento. A lua estava grande e iluminava o suficiente para distinguir os contornos das coisas.

Passei pelos camelos estacionados, afastei-me um pouco do acampamento e deixei a cabeça cair para trás.

Nunca vi um céu tão assim, com tantas, mas tantas, estrelas! Estrelas enormes e brilhantes como nunca tinha visto. Vi três estrelas cadentes nuns poucos minutos! Já me doía o pescoço e choravam os olhos (do esforço claro, era lá capaz de me emocionar com a beleza do cenário…) quando sinto pessoas a vir na minha direcção.

Vão subir à duna para ver as estrelas. Disse o marido H. e lá fomos também. Aos poucos as cerca de trinta pessoas foram saindo do acampamento e dirigindo-se à grande duna em pequenos grupos.

O marido H. e o R., acometidos por alguma espécie de embriaguez de deserto, empreenderam na subida ao ritmo mais rápido que conseguiam, deixando-me a mim e à S. para trás. Tivemos de parar para respirar logo ao início. Subir aquele monte de areia era esgotante, a cada passo de davámos o pé enterrava-se e deslizava para baixo e parecia estarmos numa máquina de step infernal. Sentámo-nos na crista da duna, a tentar recuperar enquanto passavam pessoas para cima e pessoas para baixo. O H. volta para baixo, dá-me a máquina fotográfica e volta a subir. A S. afiança que dali para cima já não vai. O R. Já nem se vê.

E eu? Subo sozinha? Volto para o acampamento? Não ia perder a hipótese de ver melhor aquele céu, num sítio ainda mais escuro, no cima da maior duna. 200 e poucos metros de altitude também não é nada, pensei.

Noite escura, telemóvel sem bateria e óculos no acampamento a.k.a. não via um palmo à frente do nariz. Passei por um grupo, brasileiros bem dispostos. Outros desciam. Os cruzamentos eram complicados, a crista da duna era estreita e ambas as encostas bem mais inclinadas do que pareciam vistas de baixo.

Continuo a subir, com dificuldade. Bolas que isto é mesmo difícil. Passo pelos brasileiros, todos sentados dum lado da duna a ver o acampamento pequenino lá em baixo. Se calhar 200 metros não é assim tão pouco.

Não sei há quanto vou a subir mas as pernas tremem e a boca sabe-me a sangue. Deixo-me cair de joelhos e acho que já não consigo mais. Queria tanto ver o céu e o silêncio lá de cima mas não consigo mais. Baixo a cabeça, sinto-me derrotada. Olho em volta e abaixo do céu é tudo cinzento. Distingo o contorno da crista da duna e a imensidão do céu, pesado do brilho. Mas porque é que me meto nestas coisas? 

Tocam-me nas costas. You want to go up? Digo ao guia que sim, ele pede que lhe dê a mão e começa a andar. Vai falando comigo, pergunta banalidades. Vamos passando pelos grupos restantes. Anda sem esforço na areia, fuma com a mão esquerda e com a direita ampara-me os deslizes. Quero largar-lhe a mão mas ele não deixa, segura-a com força e sinto-lhe a mão macia e o perfume da flor de laranjeira. Só consigo perceber uma djellaba clara, com riscas e um lenço grande, branco à volta da cabeça. Não lhe consigo ver a cara.

Pára. Here you are. E aponta. 3 ou 4 metros adiante o marido H. e o R. riem no cume. Eu sem fôlego, estafada e fula.

Depois de fazer ouvidos moucos àqueles dois, consegui, por um bocadinho, estar sozinha no silêncio, o mais perto das estrelas que algum dia estive, e encher os olhos daquele brilho imenso que nunca vou esquecer. Custou-me nas pernas e no orgulho subir áquela duna. Quis desistir, insisti, escorreguei, caí. Mas consegui, cheguei ao cimo.

E, como em tantas outras coisas, só foi preciso darem-me a mão para conseguir lá chegar.

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A minha máquina não foi capaz de captar o cenário mas as cores desta fotografia são muito semelhantes às que tenho na cabeça. Só a duna é que era muito mais “afiada” e íngreme.

J.

Imagens daqui e daqui.

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