Um salto perfeito

Sexta feira. A propósito de umas obras forçadas em casa dos meus pais fui incumbida de esvaziar o meu antigo quarto. Foi um dia inteiro a fazer triagem: deitar fora, dar ou guardar.

Encontrei os postais de aniversário e de natal. Calhou ler um teu, atraída pela tua letra inconfundível que desenhava muito mais que um par de linhas de parabéns e felicidades. Lembrei-me de ti, de vocês e de nós naquela altura e tive saudades. Suspirei e voltei a guardá-lo.

Irónico.

Sábado. Estávamos todos a almoçar em minha casa quando o telefone da minha mãe tocou. Foi à varanda atender e voltou a entrar pouco depois.
“A Sandra morreu.”
Qual Sandra?
A Sandra… Teve um ataque cardíaco.”

Assim sem mais, sem aviso, o teu coração parou.

Passei a tarde a tentar distrair-me das perguntas e das memórias. Fui ocupando as mãos a cozinhar e saiu-me um empadão gigante. Eu adorava o teu empadão, lembro-me de te pedir que ensinasses a minha mãe a fazer igual.

Irónico.

Domingo. A minha mãe faz anos. Não dá para fazer de conta. Desde que tocaste à campainha (dois toques) que és amiga-família. A Sandrinha dela. A rapariga que tem jeito para tudo. Uma mulher danada.

Passámos o dia a tentar equilibrar uma balança estranha, com um aniversário num prato e um velório noutro. Parece a vida condensada num só dia.

Irónico.

Segunda feira. Lembro-me de algumas das tuas histórias, dos pais que não tiveste, das irmãs que foste descobrindo, do avô que te criou e da família que nunca desististe de construir.

Não me surpreende ver-te rodeada de amigos que vão sentir a tua falta como se de um membro da família se tratasse.

Irónico.


Só consigo pensar em como te vejo, vividamente, nos teus filhos. Na perspicácia do D., na doçura da S., na irreverência do S.. Se calhar o teu coração cansou-se. A minha mãe diz que sim. Não se pode escolher estas coisas.

Lembro-me duma vez em que me levaste à piscina. Deve ter sido perto da altura em que eu tinha 10, tu 20 e o meu pai 40. Eu adorava ir à piscina. Lembro-me do sol, do azul forte e de me desafiares para saltar da prancha.

Eu estava à vontade com o nadar mas saltar de alturas era outro campeonato. Optando pela prancha mais baixa e de pés juntos, lá saltei. Fiquei dentro de água à espera da tua vez.

Mas tu não saltaste, disseste-me adeus e dirigiste-te às escadas. Ela enganou-me! Fez-me saltar e agora não salta! Foi o que pensei.

Mas não. Tu não desceste, tu subiste.

Tu subiste à prancha mais alta, com todos os olhos postos em ti, em suspense na dúvida do que irias fazer, com expectativas baixas e alguma troça.

E mergulhaste sem hesitar. De cabeça, num vertical perfeito, sem salpicos na entrada.

321311

Acho que me lembrei disto porque acho que retrata a tua vida.

Emergiste mesmo junto a mim, com as sardas e o cabelo a contrastar com a água e um sorriso enorme.

Há tanta coisa que não podemos escolher, em que ninguém manda, onde é o que for e pronto. Mas eu vou escolher lembrar-me de ti assim, de sorriso rasgado, olhos brilhantes e gotinhas de água na pele, depois de um salto perfeito.

J.

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