Hoje é Dia De Comprar um Livro

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Descobri que hoje se comemora o dia de comprar um Livro.

Se forem como eu, passam horas a escolher o livro certo, o que também faz parte do processo de comprar um livro novo: vêr o que há de novo, lêr as sinopses e esperar que algum título nos diga aquilo que precisamos para decidir.

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Foi, precisamente, o título que me fez escolher este Livro, absolutamente arrebatador, que me deu a conhecer aquela que eu considero a obra-prima de um Autor que, em todos os livros, parece escrever para mim.

As velas ardem até ao fim, de Sandor Marai, é um livro incomparável, desconcertante e profundamente comovente. Li-o há uns bons anos, com um chocolate quente na mão e uma paisagem incrível atrás de mim. Mas este livro apaixonar-me-ia de qualquer forma. É um daqueles livros que parecem escritos para nós de tão envolvente que é.

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A história é simples: dois amigos, um segredo, uma traição, uma conversa adiada por mais de 40 anos,  um monólogo-dialogo de uma sinceridade brutal. É sobretudo um Tratado sobre a Amizade, mas é muito mais que isso…

É sobre escolhas, escolhas pequenas que mudam tudo, para sempre; sobre caminhos que tomamos e que, às vezes, nos levam para onde não queríamos ir, é sobre isso, sobre como o bater de asas de uma borboleta na China pode mudar a nossa vida…

É sobre segredos demasiado pesados, sobre conversas sérias e inevitáveis escondidas atrás de conversas idiotas e de costas voltadas.

É sobre raiva e sobre ódio, sobre paixão, amor e amizade, é sobre sentimentos e sobre como a memória os cristaliza, sobre como os afecta, sobre como nos afecta e nos mostra o que não conseguíamos ver. É sobre o tempo, o efeito do tempo, em nós, nas nossas memórias e nos nossos sentimentos.

É sobre cobardia também, sobre fugas, sobre medos que não se ultrapassam e sobre coisas que têm que ser feitas, por muito medo que se tenha, das quais não se pode fugir eternamente… É também sobre isso, sobre a linha às vezes muito ténue que separa o certo do errado, e que nos separa de alguém irremediavelmente.

No fim, é sobre o que é realmente importante, e, como no livro, também na vida, todos temos as nossas prioridades.

 “Sim vaidade…porém, essa dignidade é o conteúdo mais prundo da vida humana. Por isso temia o segredo.Por isso aceitamos qualquer solução, mesmo uma solução vil e cobarde – olha à tua volta, e encontras sempre essa solução a meio termo entre pessoas, na vida: um vai-se embora para longe daquela ou daquelas pessoas, porque tem medo do segredo, o outro fica, guarda silencio e espera eternamente por alguma resposta. Foi isso que vi…e vivi. Não é cobardia isso, não…é a ultima defesa do instinto para viver.”

“Afinal, uma pessoa sempre responde com a sua vida inteira às perguntas mais importantes. Não importa o que diz entretanto, com que palavras e argumentos se defende. No fim, no fim de tudo, com os factos da sua vida responde às perguntas que o mundo lhe dirigiu com tanta insistência. Essas perguntas são as seguintes: Quem és tu?… Que querias realmente?… Que sabias realmente?… A que foste fiel ou infiel?… A quê ou quem mostraste ser corajoso ou cobarde?… São essas as perguntas. E uma pessoa responde como pode, duma maneira sincera ou mentindo; mas isso não tem grande importância. O importante é que no fim, uma pessoa responde com toda a sua vida. […]A outra [pergunta] é: qual era a tua relação comigo? Eras meu amigo? Afinal de contas, fugiste.”

A amizade, pensava eu […] é a relação humana mais nobre que pode haver entre os seres vivos humanos. […] Entre pessoas, vi menos exemplos [de amizades, comparativamente ao reino animal]. Para ser mais exacto, não vi nenhum. As simpatias que vi nascer entre pessoas diante dos meus olhos, acabaram sempre por se afogar nos pântanos do egoísmo e da vaidade. A camaradagem, o companheirismo, às vezes, parecem amizade. OS interesses comuns por vezes criam situações humanas que são semelhantes à amizade. E as pessoas também fogem da solidão, entrando em todo o tipo de intimidades de que, a maior parte das vezes, se arrependem, mas durante algum tempo podem estar convencidas de que essa intimidade é uma espécie de amizade. Uma pessoa imagina […] que a amizade é um serviço. O amigo, assim como o namorado, não espera recompensa pelos seus sentimentos. Não quer contrapartidas, não considera a pessoa que escolheu ser seu amigo como uma criatura irreal, conhece os seus defeitos e assim o aceita, com todas as suas consequências. Isso seria o ideal. E na verdade, vale a pena viver, ser homem, sem esse ideal?”

“Temos de suportar, o segredo é isso. (…) Temos de suportar que as pessoas que amamos, não nos amem, ou que não nos amem como gostaríamos. Temos de suportar a traição e a infidelidade, e o que é mais difícil entre todas as tarefas humanas, temos de suportar a superioridade moral ou intelectual de uma outra pessoa.’

in As Velas Ardem Até ao Fim, de Sandor Marai

Neste dia de comprar um Livro, esta é a minha recomendação.

P.

Imagens daqui, daqui e daqui

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3 thoughts on “Hoje é Dia De Comprar um Livro

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