Um frasco cheio

Diz-se que, com a idade, vamos ficando mais tolerantes. E é verdade, aprendemos a considerar outros pontos de vista, a aceitar opiniões diferentes e, no geral, a conviver saudavelmente com as idiossincrasias uns dos outros.

Paralelamente também acontece que algumas das nossas intolerâncias se acentuam com o tempo. Fruto da maturação dos nossos mecanismos de defesa ou apenas resposta condicionada, não sei. Só sei que quanto mais velha fico, mais certas coisas me irritam.

Eu sinto que tenho cada vez menos tolerância a certas coisas. A algumas chego a ser intolerante, de tal forma me alteram o sistema.

Uma delas é o queixume. Lido mal, muito mal, com o hábito do queixume. Infelizmente parece ser uma característica portuguesa, queixarmo-nos de tudo e por tudo. É porque está calor, porque está frio, porque está grande, porque está pequeno, porque é assim ou assado.

Não sei lidar com isto. Principalmente quando o queixume é uma entidade isolada, a que não acompanha qualquer iniciativa ou ideia para resolução do problema.

Que utilidade prática podemos tirar do queixume? Não vejo nenhuma. Apenas faz com que nos rodeemos de negatividade, com que gastemos energia inutilmente e sejamos visto como pessoas abrasivas ou comodistas. E nada disto nos ajuda, de facto, a chegar mais perto da solução do problema que originou o queixume.

É como na história do frasco:

Um professor de filosofia traz para a aula um frasco de vidro. Enche o frasco de pedras e pergunta aos alunos se o frasco está cheio. Os alunos respondem que sim, claro.

O professor deita então no frasco ervilhas, que se intrometem pelo meio das pedras. E agora? Agora é que está mesmo cheio, dizem os alunos.

Sob o olhar atento dos alunos, o professor despeja, lentamente, areia no frasco. A areia vai descendo, encontrando os vazios e vai preenchendo o frasco. E então, de certeza que o frasco já estava cheio?

O frasco é a nossa vida e as pedras são as coisas verdadeiramente importantes, a nossa família, os nossos amigos, o nosso bem estar. As ervilhas são as outras coisas para as quais há sempre tempo, como o trabalho, por exemplo. É só encaixá-las nas pedras, cabem muitas ervilhas (ao contrário é mais difícil). E depois há a areia, todas as pequenas coisas que preenchem os nossos dias. Valerá a pena queixarmo-nos de cada grão de areia?

Ou será mais eficiente usar a energia que dedicamos ao queixume para resolver o problema? Às vezes basta abanar o frasco para que as coisas se arrumem.

Eu acrescento um ponto à história. Aposto que, depois da areia, ainda conseguíamos deitar água no frasco. A água que une tudo dentro do frasco é a nossa atitude.

Se tivermos uma atitude positiva, construtiva e activa perante os grãos de areia, ela irá estender-se, pouco a pouco, às ervilhas e, por fim, envolver todas as pedras.

J.

Imagem daqui.

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