Trabalhar para acabar com o desemprego: Só que não.

Não tenho conseguido escrever grande coisa porque tenho estado a trabalhar.

A trabalhar das 09 às 18 (quando corre bem), a trabalhar numa start up onde tudo é novo, a trabalhar num projecto muito giro e exigente, a trabalhar usando todos os neurónios que tenho e o treino que lhes dei ao longo dos anos.

Tenho trabalhado bastante o que me faz sentir bem, especialmente por saber que muito mais há para fazer e que o céu é o limite. Motivação em alta, equipa 5 estrelas, projecto aliciante. Tudo maravilhoso, portanto.

Até entrar a variável Segurança Social.

Para contextualizar, estive 5 anos a trabalhar como falso recibo verde, tive atividade fechada durante 9 meses e voltei a iniciar em janeiro último.

Eu tinha prometido a mim mesma que não voltaria a aceitar trabalhar como falso recibo verde mas o projeto era aliciante e a justificação da situação aceitável, por isso decidi aceitar.

Ok, já sabia que o valor era baixo e que as chatices com as Finanças e a SS iriam regressar mas pensei que estando bem informada, conseguiria gerir a situação.

Só que não, claro.

Antes de abrir atividade fui, propositadamente à SS perguntar em que escalão me enquadrariam. Fui duas vezes. Das duas vezes me disseram que, sendo um reinício, o escalão inicial seria o 0 (62 euros). Eu vi esta informação ser-me dada duas vezes com o meu perfil da SS aberto, ostentando as datas e valores da minha atividade passada. Duas vezes.

Abri atividade no início da minha colaboração com a empresa para cumprir com o meu dever e de forma honesta, deixar de receber o subsídio de desemprego na data em que realmente comecei a trabalhar (e não a data em que emitiria o primeiro recibo).

Acabei por ainda não ter nada faturado mas sabia que tinha de pagar na mesma a contribuição à SS referente ao mês de Janeiro e lá fui eu ao multibanco pronta para pagar os 62 euros.

Só que não.

Introduzo os dados, carrego OK e aparecem 248 euros para pagar. Espera lá que já houve engano.

Só que não.

Ligo para a linha de apoio e não, não houve engano nenhum. Enquadraram-me no 3° escalão, com base nos rendimentos de 2015.

Depois de mais dois telefonemas e uma visita à SS, ninguém é responsável por prestar informações erradas, eu não posso fazer nada a não ser pedir a redução para o escalão 1 e pagar, no mínimo e se tudo correr bem, dois meses de escalão 3. Parece menos mal, não é?

Só que não.

São 500 euros. Volto a referir que não faturei nada. Não faturo nada desde março de 2016. E tenho de pagar 500 euros. Parece impossível, um erro certamente!

Só que não.

Utilizam o que faturei há dois anos para decidir o que devo contribuir hoje. Dois anos depois. Dois anos em que quando precisei de usufruir das minhas contribuições à SS…Kaput. Dois anos é muito tempo e muita coisa muda.

Só que não.

Aparentemente, nalgumas coisas, nada muda mesmo. Esta merda de situação (não me esqueci de riscar ou substituir por asteriscos, é mesmo merda que quero dizer) continua a existir. Mudaram cores e ventos políticos mas as merdas, são as mesmas! Merdas que impedem as pessoas normais de ter uma vida normal, fácil de entender não é?

Só que não.

Dizer que o desemprego é um flagelo e que o importante é criar mais postos de trabalho é, basicamente, só uma ideia de merda. O flagelo são as faltas. A falta de condições. A falta de respeito pelo trabalho. A falta de respeito pelos trabalhadores. A falta de perspectiva.

Trabalho há muito. Há muito para fazer em Portugal. Devia ser um bom sinal.

Só que não.

Trabalhares como te é exigido, teres formação, alguns anos de experiência profissional, 20 cursos extra, falar fluentemente 3 línguas, ter experiência internacional, disponibilidade para full time, vender a alma ao diabo e mais horas extra pagas a “parece bem”, devia ser suficiente para teres, pelo menos, dinheiro para comeres e viveres normalmente. Sem grandes merdas.

Só que em Portugal não, mesmo.

J.

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3 thoughts on “Trabalhar para acabar com o desemprego: Só que não.

  1. Trabalhei para o Estado como falsa recibos verdes durante 8 anos. Chega a um ponto em que já estás a pagar para trabalhares. Além da segurança social ainda havia o iva. E cada ano que passava era todo um filme com a segurança social porque para te devolverem dinheiro que pagaste a mais (porque ali ninguém se responsabiliza por te darem informações erradas) já não se mexem, mas vai lá tu falhar uma contribuição a ver como te tratam.

    Cansei! Hoje ganho muito menos que antes, mas pelo menos já não tenho as dores de cabeça que tinha.

    Gostar

  2. Pingback: Só que não: parte II – Os 30 e Eu

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