Depois da mentira…

Chegou à esplanada, atirou com as chaves do carro para cima da mesa e disse-me:

Menti-te e sei que tu sabes!
– Mmm… ok…

– É só isso que vais dizer? “ok?” Não queres que as coisas fiquem esclarecidas, tu não és a mesma. Desculpa.

– Não precisas de pedir desculpa. Está tudo bem, a sério.

-Mas estás diferente, comigo. Quer dizer, és a mesma, mas eu sei que estás diferente, comigo, que alguma coisa mudou… eu sinto isso – e sentou-se, como que derrotado.

– Eu sou a mesma e tu também. Nós somos os mesmos. Não estou zangada. As coisas são como são, as pessoas mentem. Lidamos como isso e seguimos em frente, como conseguimos. É isso… mas percebe, eu agora vivo num Mundo em que sei que tu és capaz de me mentir. Está tudo bem… É só que… antes eu não pensava que isso pudesse acontecer, só isso. Mas está tudo bem. Queres que peça café para ti também?

 

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P.

Imagem daqui

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Onde estavas tu no 11 de Setembro #Repost

Poucos se lembrarão onde estavam e o que estavam a fazer no dia 10 de Setembro de 2001 pelas 10 horas, ou no dia 12 de Setembro pelas 14h. Mas é diferente se falarmos em 11 de Setembro de 2001.

A memória tem destas coisas.

11 de setembro de 2001. O dia que, independentemente de tudo o que se diga sobre ele, mudou o Mundo. Todos nós lembramos onde estávamos e o que fazíamos no momento em que o Mundo parou e Manhatan viveu o cenário de um filme que ninguém tinha projectado.

É verdade, tantos filmes, tantos livros e a realidade sempre encontra uma forma de se sobrepor à ficção.

Ponhamos de parte todas as teorias da conspiração e outras, as ideias políticas e os interesses economicos. Não foi nada disso que cristalizou as nossas memórias. Pelo menos, não na minha.

Foi o que senti. Foi o que vi. Foi o que ouvi. O desespero, a angústia, a incredibilidade, o sofrimento, a humanidade.

Estava a almoçar em casa da minha avó, quase a terminar, o telejornal estava mesmo nas despedidas finais do apresentador e estávamos a preparar-nos para desligar a TV e sair para o café quando apareceu a notícia de “última hora” mais avassaladora de sempre. E as imagens. E eu a pensar que estivera ali há uns meses.

Ficámos ali, caladas, a tentar perceber, até que vimos a primeira torre desmoronar como um castelo de cartas: já não houve café naquela tarde.

O 11 de Setembro tinha começado. Já lá vão 16 anos…e ainda não acabou. Talvez nunca mais acabe.


P.

Defeito de fabrico

Há defeitos que são de fabrico, outros são de profissão.  Tenho muitos, de ambas as categorias.

A minha profissão trouxe-me um particularmente “chato” quando transposto para a vida pessoal. Nem é de propósito, mas eu encontro as falhas nas histórias, o detalhe que esconde a verdade e que arrasa com a meia-treta que me impingiram, a vírgula que muda o sentido à frase.

Aconteceu-me um destes dias.

Uma porcaria de um papel, enquanto remexia numa gaveta cheia de tretas para deitar fora. Olhei para ele, vi a data e veio-me à memória aquela tarde. E encontrei a contradição, a falha na história, a verdade da mentira.

Sorri – tenho sempre um certo contentamento nestas descobertas – com a consciência que preferia não saber, preferia não ter visto, porque nem é assim tão relevante, nem a omissão grave a ponto de resultar numa quebra de confiança, nem a verdadeira história importante a ponto de mudar o rumo de alguma coisa.

Às vezes, a verdade, quando não é dita no momento certo, quando a descobrimos já tarde, não traz bem nenhum, não faz qualquer bem ou diferença que valha a pena, é uma espécie de roupa bonita que não serve a ninguém…

O fim do medo de Domingo e outras coisas

Finalmente conseguimos encontrarmo-nos, depois das muitas combinações descombinadas.
Disse-me que o tempo, desde que o ano começou, tem fugido debaixo dos pés, no bom sentido.
Que as mudanças são assim mesmo, imprevisíveis. E as dela têm sido incrivelmente compensadoras.
Um dia disse-me que queria ter uma vida em que precisasse de férias para descansar, não para fugir ou poder ser ela própria por uns míseros dias…
Hoje confessou-me que é uma pessoa grata, enquanto dá um passeio na praia ao final da tarde, porque tem essa vida, de que não precisa de fugir.
Não precisa dos fins de semana para se sentir viva, nem dos feriados para ser ela, nem das férias para estar em paz.
Também já não tem medo dos Domingos e as Segundas-feiras já não a deprimem.
Já não sente uma faca constantemente apontada às costas e nem um nó na garganta com o amontoado de tudo o que não dizia.
Isso percebe-se, na cara dela, na postura, nas gargalhadas desprendidas e genuínas, iguais às que dava quando a conheci, há uns 15 anos atrás…
" Mudaste muito" disse-lhe, contente como só ficamos pelos amigos que são família
" Não" respondeu-me " só voltei a ser eu! ".

A voz da minha consciência

O problema é a vozinha fininha que vem de dentro e que me incomoda até às unhas dos pés.

O problema é a espinha dorsal que me impede de olhar para o lado e assobiar. O problema é a consciência: a minha.

De que vale apregoarmos valores e princípios e depois ficarmos de braços cruzados quando nos atiram um dilema moral para o colo? Quem somos nós quando nos calamos perante uma injustiça? Quem sou eu quando me tento convencer que não tenho de fazer nada?

E sempre aquela frase na minha cabeça ” para que o mal triunfe é preciso que os homens de bem nada façam“.

Uma amiga foi assaltada há uns anos numa das ruas mais movimentadas de Lisboa. Para lhe arrancar a mala, um tipo empurrou-a, ela caiu por uma escada e ali ficou. De todas as pessoas que passaram por ela nenhuma lhe estendeu a mão, nenhuma se importou, todos lhe passaram ao lado. Teve de se levantar sozinha e, mal se podendo mexer, telefonar a pedir ajuda. De toda a experiência, foi isto que lhe foi mais dificil ultrapassar: a falta de humanidade.

E pensar que toda aquela malta que passou por cima dela, naquela tarde, se deitou à noite e adormeceu…

Eu não consigo adormecer sem que antes a minha consciência me diga: ” estás a falhar…e eu sei que tu sabes isso…”.

Hoje no carro levantei pus o volume da música no máximo, para ver se o som abafava a voz miúdinha da minha consciência. Não resultou.

Não consigo deixar de pensar que nos tornamos cúmplices das porcarias com que compactuamos. Seja quando deixamos que uma pessoa pontapeie um cão à nossa frente, quando viramos a cara perante um casal que se agride, quando passamos por cima de alguém que foi assaltado, quando nos calamos e deixamos que humilhem alguém à nossa frente? E o que isso faz de nós? O que isso faz de mim?

Como é que toda a gente dorme?

No fim do dia, a questão é simples: estou a borrifar-me que metam a pata na poça ou na lama, só não me obriguem a sujar-me também.

Sou responsável pelos meus erros, pelas minhas porcarias, pelas minhas decisões, não me arrastem para decisões que não tomei; não posso ser cúmplice de porcarias que não são minhas.  Não consigo. Está na minha natureza.

É que eu não sei como os outros dormem, mas eu não durmo e preciso de dormir!

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P.

Trabalhar para acabar com o desemprego: Só que não.

Não tenho conseguido escrever grande coisa porque tenho estado a trabalhar.

A trabalhar das 09 às 18 (quando corre bem), a trabalhar numa start up onde tudo é novo, a trabalhar num projecto muito giro e exigente, a trabalhar usando todos os neurónios que tenho e o treino que lhes dei ao longo dos anos.

Tenho trabalhado bastante o que me faz sentir bem, especialmente por saber que muito mais há para fazer e que o céu é o limite. Motivação em alta, equipa 5 estrelas, projecto aliciante. Tudo maravilhoso, portanto.

Até entrar a variável Segurança Social.

Para contextualizar, estive 5 anos a trabalhar como falso recibo verde, tive atividade fechada durante 9 meses e voltei a iniciar em janeiro último.

Eu tinha prometido a mim mesma que não voltaria a aceitar trabalhar como falso recibo verde mas o projeto era aliciante e a justificação da situação aceitável, por isso decidi aceitar.

Ok, já sabia que o valor era baixo e que as chatices com as Finanças e a SS iriam regressar mas pensei que estando bem informada, conseguiria gerir a situação.

Só que não, claro.

Antes de abrir atividade fui, propositadamente à SS perguntar em que escalão me enquadrariam. Fui duas vezes. Das duas vezes me disseram que, sendo um reinício, o escalão inicial seria o 0 (62 euros). Eu vi esta informação ser-me dada duas vezes com o meu perfil da SS aberto, ostentando as datas e valores da minha atividade passada. Duas vezes.

Abri atividade no início da minha colaboração com a empresa para cumprir com o meu dever e de forma honesta, deixar de receber o subsídio de desemprego na data em que realmente comecei a trabalhar (e não a data em que emitiria o primeiro recibo).

Acabei por ainda não ter nada faturado mas sabia que tinha de pagar na mesma a contribuição à SS referente ao mês de Janeiro e lá fui eu ao multibanco pronta para pagar os 62 euros.

Só que não.

Introduzo os dados, carrego OK e aparecem 248 euros para pagar. Espera lá que já houve engano.

Só que não.

Ligo para a linha de apoio e não, não houve engano nenhum. Enquadraram-me no 3° escalão, com base nos rendimentos de 2015.

Depois de mais dois telefonemas e uma visita à SS, ninguém é responsável por prestar informações erradas, eu não posso fazer nada a não ser pedir a redução para o escalão 1 e pagar, no mínimo e se tudo correr bem, dois meses de escalão 3. Parece menos mal, não é?

Só que não.

São 500 euros. Volto a referir que não faturei nada. Não faturo nada desde março de 2016. E tenho de pagar 500 euros. Parece impossível, um erro certamente!

Só que não.

Utilizam o que faturei há dois anos para decidir o que devo contribuir hoje. Dois anos depois. Dois anos em que quando precisei de usufruir das minhas contribuições à SS…Kaput. Dois anos é muito tempo e muita coisa muda.

Só que não.

Aparentemente, nalgumas coisas, nada muda mesmo. Esta merda de situação (não me esqueci de riscar ou substituir por asteriscos, é mesmo merda que quero dizer) continua a existir. Mudaram cores e ventos políticos mas as merdas, são as mesmas! Merdas que impedem as pessoas normais de ter uma vida normal, fácil de entender não é?

Só que não.

Dizer que o desemprego é um flagelo e que o importante é criar mais postos de trabalho é, basicamente, só uma ideia de merda. O flagelo são as faltas. A falta de condições. A falta de respeito pelo trabalho. A falta de respeito pelos trabalhadores. A falta de perspectiva.

Trabalho há muito. Há muito para fazer em Portugal. Devia ser um bom sinal.

Só que não.

Trabalhares como te é exigido, teres formação, alguns anos de experiência profissional, 20 cursos extra, falar fluentemente 3 línguas, ter experiência internacional, disponibilidade para full time, vender a alma ao diabo e mais horas extra pagas a “parece bem”, devia ser suficiente para teres, pelo menos, dinheiro para comeres e viveres normalmente. Sem grandes merdas.

Só que em Portugal não, mesmo.

J.

A desconhecida do café

Estou a pedir o meu café e um bolinho para me aquecer, quando o meu olhar se cruza com o de uma mulher que terá os seus 40 e tal anos ( acompanhada pela filha de 20 e poucos). “Olá, como estás?“.

De imediato, começo a percorrer as minhas gavetas mentais da memória à procura daquela cara e respectiva correspondência… NADA. ZERO. NICKLES. E isto não é normal em mim, eu até posso andar ali às voltas para fazer corresponder uma cara a uma pessoa e, mais difícil ainda, a um nome, mas raramente me esqueço de uma cara.

De qualquer forma, respondi, podia ser que naqueles segundos seguinte se fizesse luz no meu armazém cerebral.

-“Olá, está tudo bem, obrigada ( mentira, que há três dias que ando aflita com o dedo mindinho do pé esquerdo, mas pronto). E consigo?

Assim ficámos até eu terminar o meu café e não resistir à curiosidade: ” peço imensa desculpa, eu sei que nos conhecemos (mentira n.º 2), mas não estou a conseguir lembrar-me de onde…

 -“Andámos juntas na escola“, responde-me a senhora de 40 e tal anos com uma filha de 20 e tal ” assim que te vi reconheci-te, embora estejas um bocadinho diferente…

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Esbugalhei os olhos, enquanto decidia o caminho a seguir (decidi que o “deve estar enganada” geraria uma situação desconfortável) e respondi “ahhh, claro, está tudo bem lá por casa?” ( mentira n.º 3, neste momento eu já tenho a certeza que não conheço aquela pessoa de lá nenhum). “Desculpa, mas esta cabeça às vezes…“, disse-lhe enquanto olhava de soslaio para o espelho à minha frente para confirmar que não envelheci mais de dez anos em 10 minutos (tinha acabado de me ver ao espelho no elevador).

– “Compreendo bem o que dizes, eu às vezes também faço cada confusão...”, respondeu-me.

– “Acredito.” ( verdade n.º 1) “Gostei de te ver, manda cumprimentos lá em casa“, disse-lhe antes de sair e antes que tentasse combinar um almoço ( isso seria um nível de loucura que até a mim me transcenderia).

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P.

Imagens daqui e daqui