Mais vale tarde que nunca: a gravidez

Ou melhor, mais vale tarde que nunca, escrever sobre a gravidez. Já mais perto do fim do que do início, acho que (finalmente) consigo escrever sobre a minha gravidez. Andava aqui num vai-não-vai porque, por um lado, é muita coisa a acontecer ao mesmo tempo e, por outro, escrever ajuda-me a pôr as ideias em ordem.

Continuo sem saber nada, sem ter certezas de nada, sem perceber um décimo do que se está a passar mas sem dar por isso já vou quase nas 30 semanas de gravidez e é este ponto de situação:

Sentimento geral de estar em “estado de graça”:

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É estranho, muito estranho. Não me levem a mal, conceptualmente adoro a ideia: ter um bebé a crescer dentro de mim, gerar uma vida, é espectacular. Mas ao mesmo tempo que sinto que é uma coisa natural e que o meu corpo me diz que sabe o que está a fazer, é super esquisito. Não estava nada preparada para estas sensações, nunca tinha pensado a fundo sobre isto, em como seria sentir uma coisa viva dentro da minha barriga. Ainda não me habituei, continua a parecer-me tudo muito alienígena.

As opiniões divergem:

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E abundam. Muito. Desde o primeiríssimo momento em que se diz que estamos grávidas que começam a chover opiniões e comentários. A mim o que me surpreende é a esquizofrenia de ouvir no mesmo dia (e às vezes durante a mesma conversa) afirmações completamente contrárias – ora já vamos tarde ora foi repentino, ora estamos muito gordas ora é só barriga, ora a forma da barriga diz que é claramente um menino ora diz que é uma menina, ora é a melhor coisa do mundo ora o fim da tua vida. A sério, torna-se difícil mantermos uma perspectiva realista sobre as coisas.

É uma época feliz:

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E de medo. Muito medo. É medo que alguma coisa corra mal, medo das mudanças, medo do parto, medo das alterações no corpo, medo por causa do trabalho, medo por causa do dinheiro, medo por causa do aquecimento global. E as pessoas fazem questão de te relembrar de que o pior está sempre ainda por vir: Dormiste mal? Sabes lá o que é dormir mal, só voltas a dormir daqui a 5 anos. Doem-te as mamas? Sabes lá o que é dor, depois  daqui a uns meses vais ver. Não tens nada para vestir? Habitua-te que nunca mais compras nada para ti. Estás na penúria este mês? Quando começares a pagar fraldas e leites logo sabes o que é estar na penúria. Férias? Nunca mais vais conseguir ter “férias” .

And so on. Isto tudo sempre dito com um “mas é a melhor coisa do mundo” a rematar. Só mesmo para assegurar a completa nulidade do nosso lamento.

Valham-nos as hormonas para andarmos sempre felizes. Ou a chorar copiosamente. Para fazer pendant com toda a esquizofrenia.

J.

Gifs daqui.

Imagem daqui.

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None of us can make it alone

Numa semana em que a minha tribo me valeu, como sempre, ver este vídeo comoveu-me.

Não somos nada sem os nossos, ninguém é feliz a ser um self-made men. Somos penínsulas e não ilhas, todos precisamos uns dos outros, dos nossos. Não por interesse, mas porque somos humanos e estamos cá uns para os outros, uns pelos outros. Só assim faz sentido e só assim conseguimos.

Às vezes, há momentos, em que nos tiram o tapete debaixo dos pés e nos desiquilibramos, e é aí, que vemos quem lá está para nos segurar, quem são as nossas pessoas.  Como nós somos delas. Porque é uma estrada de dois sentidos.

 

P.

Mais 5 anos, mais 10 kgs e muitos mais kms

Correndo risco de parecer cliché, parece mesmo que foi ontem.

Faz hoje (07 Setembro) 5 anos que me casei.

Escolhi casar em Setembro e ao fim da tarde porque não me dou muito bem com o calor (e porque não me deixaram casar no inverno). Mas naquele dia esteve um calor imenso.

O dia passou a correr e cheguei à hora do casamento a sentir-me peganhenta, com a tensão baixa e pálida. O porta alianças desapareceu, não provei nada do buffet e começaram a tirar-nos as bebidas ainda não eram 2h da manhã.

Não foi tudo perfeito mas foi um dos dias mais felizes e divertidos da minha vida.

Sinto o mesmo destes 5 anos.

Fizemos muitos kms, descobrimos que é no caminho que nos sentimos em casa e que voltamos sempre melhores. Tivemos altos e baixos, dias bons, dias muito bons, dias maus e dias para esquecer. Não falamos a mesma língua, continuas a não encontrar nada sozinho e eu continuo a guardar atilhos como se nos pudessem salvar de um apocalipse.

Tinha imaginado fazer uma festa para comemorar, voltar a convidar todos os convidados, desafiar toda a gente a vestir a mesma roupa e passar um dia fantástico outra vez.

Mas eu não caibo no vestido, tu tens mais 10kg (diz que é sinal de que te trato bem), eu tenho mais 10kg (diz que é sinal do que aí vem), temos nas pernas muitos mais kms que algum dia pensámos ter e somos muito mais do que julgávamos poder ser.

Somos uma boa equipa mas não somos um par perfeito. E é na imperfeição e nos acasos que vejo que ainda há muita coisa para aprender e muito mais para descobrir.

J.

Deixo algumas fotos para recordar, todas pela lente da fantástica Mariiana Capela:

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É preciso deixar ir…

Disse-me que, agora, à volta dela só mantém o que é verdadeiro. Só o que vale a pena. Só o que não tira a paz.
Tinha a sensação de não conseguir seguir em frente por ter demasiado peso nos ombros. Como um balão de ar quente que não sobe porque está cheio e é preciso ir deitando fora os sacos para que possa voar.
Disse-me que sentiu isso, que teve de decidir deixar para trás tudo o que não lhe fazia bem, o que diminuía a sua alegria e tranquilidade.
Olhou para mim, com algum pesar, percebi isso e acrescentou:"como as pessoas sabes, há pessoas que só nos puxam para baixo, têm sempre algo negativo a dizer, alguma crítica destrutiva a fazer. Há pessoas que percebes que só querem saber da tua vida para contar, para comentar, para analisar, como se vivêssemos num big brother gigante. Também tive de deixar algumas pessoas, tenho pena, foi difícil, mas tive que pensar em mim, percebes? "
Eu percebo. Precisamos de largar o que nos prende se queremos voar…

A voz da minha consciência

O problema é a vozinha fininha que vem de dentro e que me incomoda até às unhas dos pés.

O problema é a espinha dorsal que me impede de olhar para o lado e assobiar. O problema é a consciência: a minha.

De que vale apregoarmos valores e princípios e depois ficarmos de braços cruzados quando nos atiram um dilema moral para o colo? Quem somos nós quando nos calamos perante uma injustiça? Quem sou eu quando me tento convencer que não tenho de fazer nada?

E sempre aquela frase na minha cabeça ” para que o mal triunfe é preciso que os homens de bem nada façam“.

Uma amiga foi assaltada há uns anos numa das ruas mais movimentadas de Lisboa. Para lhe arrancar a mala, um tipo empurrou-a, ela caiu por uma escada e ali ficou. De todas as pessoas que passaram por ela nenhuma lhe estendeu a mão, nenhuma se importou, todos lhe passaram ao lado. Teve de se levantar sozinha e, mal se podendo mexer, telefonar a pedir ajuda. De toda a experiência, foi isto que lhe foi mais dificil ultrapassar: a falta de humanidade.

E pensar que toda aquela malta que passou por cima dela, naquela tarde, se deitou à noite e adormeceu…

Eu não consigo adormecer sem que antes a minha consciência me diga: ” estás a falhar…e eu sei que tu sabes isso…”.

Hoje no carro levantei pus o volume da música no máximo, para ver se o som abafava a voz miúdinha da minha consciência. Não resultou.

Não consigo deixar de pensar que nos tornamos cúmplices das porcarias com que compactuamos. Seja quando deixamos que uma pessoa pontapeie um cão à nossa frente, quando viramos a cara perante um casal que se agride, quando passamos por cima de alguém que foi assaltado, quando nos calamos e deixamos que humilhem alguém à nossa frente? E o que isso faz de nós? O que isso faz de mim?

Como é que toda a gente dorme?

No fim do dia, a questão é simples: estou a borrifar-me que metam a pata na poça ou na lama, só não me obriguem a sujar-me também.

Sou responsável pelos meus erros, pelas minhas porcarias, pelas minhas decisões, não me arrastem para decisões que não tomei; não posso ser cúmplice de porcarias que não são minhas.  Não consigo. Está na minha natureza.

É que eu não sei como os outros dormem, mas eu não durmo e preciso de dormir!

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P.

Ginásio: 5 aprendizagens

Uma das vantagens de trabalhar no centro de Lisboa é a acessibilidade a tudo. Como ao ginásio, por exemplo. Mesmo ao lado do meu escritório há um ginásio. Mesmo coladinho.

Provavelmente se eu tivesse de atravessar a avenida, nunca lá teria entrado, mas é mesmo ao lado e, por isso, em Janeiro, não encontrando desculpas suficientes, decidi inscrever-me.

Nestes dois meses de experiência de ginásio aprendi algumas coisas que vão além do número de minutos a pedalar para gastar as calorias de um pacote de gomas.

 5 coisas que aprendi no ginásio

 

  1.  As mulheres dominam

Há milhões de mulheres no ginásio. Mas milhões. Eu nem sei como é que elas cabem todas ali.

No balneário parecem uma horda infindável de soldados, armados de cremes e escovas, preparados para batalhar por um secador de cabelo ou pedaço de espelho.

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  1. As aulas de grupo

Há aulas de Zumba (estas já conhecia), há aulas de Bunda (não fazia ideia que existisse), há aulas para pedalar até cair, há aulas que parecem uma discoteca com luzes e microfones, há aulas com fitas penduradas no tecto, há aulas de tudo e para tudo.

Quando subo para o ginásio e passo pela sala de aulas de grupo com música altíssima, luzes coloridas a piscar e a treinadora a gritar ao microfone. Sempre que espreito lá para dentro, sinto-me a fazer a expressão facial idêntica à de trincar um limão.

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  1. O código de vestuário a seguir

De que ninguém me avisou antecipadamente, claro! Primeiro dia de ginásio, e J. apresenta-se de leggins velhas, ténis desbotados e t-shirt larga.

E claro, que era a ÚNICA vestida assim. Todos os restantes utilizadores vão impecavelmente vestidos, com modelitos de licra, justos e coordenados, ténis fluorescentes, telemóvel e phones. Maquilhadas e penteadas.

Simplesmente, não percebo.

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  1. As malas de viagem

Nos primeiros dias, via algumas mulheres a chegar com malas de viagem e pensava “devem ser pessoas que vieram / vão de viagem”

Mas não são, claro. Percebi depois que as malas de viagem são só A mala do ginásio. E que há quem traga, literalmente, tudo.

Champôs, condicionadores, esponjas, cremes, placas alisadoras, secadores, maquilhagem, toalhas, garrafas de água, batidos, tudo dentro da mala…e a roupa para vestir depois, pendurada num cabide.

hhhhh

  1. A roupa interior

Após dois meses de convívio com este universo de mulheres, que são milhentas, concluo que sou a única que não veste cuecas tanga.

Sinto-me excluída.

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J.

Gifs daqui.

Porque, muitas vezes, o melhor é estar calado!

Li esta parábola outro dia e percebi como vai exactamente de encontro àquilo que penso. Nunca vos aconteceu aquela coisa de virem ter convosco só para dizerem algo desagradável?

Por exemplo, uma das minhas favoritas: ” tens uma borbulha horrível no meio da testa?” ( ” a sério? Ainda bem que me avisas, porque como não a sinto e nem me vi ao espelho, não sabia e não lhe pus 10 kgs de base em cima e nem pensei ficar na cama o dia todo por terror de me confundirem com um unicórnio“).

Cheguei à conclusão que ser desagradável e dar opiniões não requisitadas faz parte do “charme” de certas pessoas, não sei se será um hábito mais notório neste país à beira mar plantado, mas às vezes, parece-me que sim.

Há malta que não se coíbe em abrir a boca só para dizer alguma coisa que vai fazer o seu interlocutor sentir-se mal. Sejam aqueles que vêm contar alguma que “um amigo disse uma coisa sobre ti“, ou pior, uma opinião negativa de uma pessoa que te é absolutamente indiferente; sejam aqueles que se acham no direito de nos dizer que aquela roupa não nos favorece (num dia em que foi um sacrifício vestirmo-nos); ou os tais que falam da borbulha que nos atormenta desde que acordámos. Todos esses, a malta das opiniões não solicitadas e da contra-informação, deviam aprender a passar aquilo que dizem pelas três peneiras de que fala esta parábola… mas aí ia ser um problema, iam apenas verbalizar uns 20% do que pensam… ( e o Mundo seria um lugar melhor para todos).

Uma pessoa perguntou ao filósofo Sócrates:

— Sabe o que seu amigo me disse sobre si?

— Espere, — interrompeu o sábio — passe o que quer me dizer por três peneiras.

— Três peneiras?

— Sim. Antes de dizer qualquer coisa é necessário passá-la por essas três peneiras. Primeiro pela peneira da verdade. Tem certeza que isso é verdade?

— Não, apenas escutei.

— Ou seja, não sabe se é verdade ou não. Vamos passar para a segunda peneira; a peneira da bondade. Vai me dizer algo bom de meu amigo?

— Não, pelo contrário.

— Então, — continuou Sócrates — quer me falar algo ruim que nem sabe se é verdade.

Passemos pela terceira peneira, a da utilidade. Tenho necessidade de ouvir o que quer me contar?

— Não, não tem necessidade de fazê-lo.

— Bom, — concluiu Sócrates, —  Se o que me quer dizer não é Verdade, nem Bom, nem Útil para mim porque mo quer dizer?!
O amigo ficou envergonhado!

E arrematou Sócrates:
 
Se passar pelas TRÊS PENEIRAS conte! Tanto eu quanto você e seu irmão iremos nos beneficiar. Caso contrário esqueça e enterre tudo. Será uma maledicência a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre irmãos.

Devemos ser sempre a estação terminal de qualquer comentário infeliz.

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P.

Parábola adaptada daqui

Imagem daqui